ELAS












(Por Leny Mell)

Na mesa de um barzinho, elas se reúnem, falam, gesticulam, riem, brindam... Celebram uma nova vida, a vida de solteiras novamente. A mente aberta se contagia sobre a mesa, uma mente leve, borbulhante como um champanhe, e nesse instante, ninguém mente, a sobriedade impera, mesmo com as taças cheias.
Livres para voar, mesmo de asas quebradas, porque liberdade é isso, voar mesmo de asas quebradas, sem ter que pedir outras emprestadas. Elas são maduras, experientes, independentes, e todas repetem um refrão como numa bela canção: - Dessa água nunca mais beberei. E sinto que a minoria está ali, "bebemorando." Porque existem outros bares, outras mesas, outras “elas”, falando sobre o mesmo assunto. Ah! sinto muito, acho que estão certas. E não é preciso ser nenhum atleta, correr léguas e perder a competição.
Vem a frustração da derrota, depois de anos de erros e acertos, de erros que condenam o amor, a morte. Essa corrida sem vencedores, entregue à própria sorte. Anos de treinos, de contusões, de dores e dissabores. Mas agora, longe da masmorra, esse grito que ecoa, não enjoa de se ouvir. Esse grito de liberdade que assanha até a mais santa. Elas, tão absolutas, ainda concluem: - Homens agora apenas para o meu bel-prazer. Não lhes crítico, talvez no fundo queira ser como elas, mas ainda não tive coragem de dar o meu grito. Medo talvez de abrir a janela e voar, depois de anos olhando o mundo quadrado, assim meio de lado. Medo de ter o banheiro só pra mim, a cama só minha, de acordar a hora que eu quiser e não fazer o café. Medo dessa nova estrada, de me sentir culpada, por ter sido torturada e acreditar que a culpa é só minha, como ele sempre diz.

Essa sabotagem de sentimentos, analisados friamente por elas, como uma mera bobagem. Medo de até rir à toa, com as luzes sedutoras da rua, de ver a minha alma nua e gostar. Mas elas, “elas” não têm esse medo, ascendem as luzes, abrem a porta da vida e dançam, enquanto a liberdade as afaga... E eu aqui sentada, sozinha num barzinho, ergo um brinde a elas e ao novo começo de era.

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