quarta-feira, 1 de março de 2017

Mal Súbito


Por Osny Alves

Há pessoas que acordam às vezes com o dia totalmente programado, e com o corre-corre de uma cidade grande, nem percebem que mal vivem direito. Temos pressa para tudo, e sem paciência com tudo e todos. Às vezes nos irritamos com a mínima situação, o nosso falar já demonstra ansiedade, vivemos praticamente dezesseis horas, planejando as próximas, no entanto, temos apenas oito horas de inatividade. O engraçado, é que muitos de nós não aproveitam bem as poucas horas de repouso que o corpo necessita para se auto reprogramar, descansar, sair das tensões diárias rever as estratégias, ou somente dormir e deixar acontecer.... Mal o dia começa e a correria volta, às vezes mais intensa que nunca. Comemos mal. Dormimos mal e por fim, vivemos mal. Mas somos cobrados ao chegarmos em uma certa idade, todas as nossas aventuras desregradas, voltam para nos assombrar. Pressão alta, baixa, diabetes, AVC, pedra nos rins, próstata, pulmão e mal súbito, são alguns castigos que temos que tolerar, por mais que pensamos não termos tempo para isso. No dia 23 de fevereiro, aconteceu.... Após fazer meus adoráveis 50 anos joviais em exatos oito dias... Levantei depois de uma noite mal dormida, de um desjejum mal administrado, de estresses corriqueiros e sem muita expressão em minha vida, sem muitas aventuras, ou se quer, qualquer tipo de sintomas, ou sentimentos, só não posso falar do suspense e do drama em que vivi nas últimas horas de terror de minha vida.... Estava dirigindo em uma das marginais de São Paulo, quando senti um terrível mal-estar, o trânsito se encontrava intenso, era impossível sair do carro, motos passavam como se fosse uma procissão, um cortejo, tanto de um lado como de outro. Faltava-me o ar, minha pressão havia subido, eu claramente podia sentir! Um calor terrível me fazia querer vomitar.... Via que estava próximo ao meu destino, mas não sabia em qual deles eu iria chegar, no bairro de Pinheiros ou na morte! Olhei para o motorista ao lado e perguntei se acaso ele possuía água potável no carro e ele me ofereceu cerveja....  Pensei comigo se realmente melhorasse eu tomaria qualquer coisa, só que eu sabia não ser o caso, pois se já está ruim, com certeza pode piorar.
Mais um quilômetro encontrei um ambulante. Bebi água, lavei o rosto, estava geladinha! Ah que alivio! Cheguei ao meu destino, minha namorada já estava impaciente. Começamos a conversar, disse a ela sobre o drama vivido poucos minutos atrás, e fomos comentando até chegar em um restaurante mexicano ali na Avenida Juscelino Kubitschek... O Yucatan, um dos melhores Restaurantes de comida mexicana de São Paulo. Estava sentado à mesa, quando voltei a sentir mal, levantei-me, fui ao banheiro, sentia-me sufocado, voltei à mesa, sentei novamente, pedi uma água com gás e tentei bebê-la, e ver se dava um alívio, mas deu um resultado bem diferente, piorei em 250%, sai às pressas da mesa e fui até a porta de entrada do estabelecimento. Haviam ali dois policiais da Rocam, que conversavam com o gerente do local, perceberam que eu não estava me sentindo muito bem e pediram para que eu me sentasse na mureta que adorna o jardim de entrada do ambiente. Segui as ordens prontamente, nisso minha namorada chegou já com a garrafa na mão e me entregou, tirei a camisa e joguei a água sobre a cabeça e minhas costas. E logo depois pedi para deitar enquanto chegava a ambulância que haviam acabado de solicitar! Foram momentos de terror e suspense! Agonizei um pouco mais de 25 minutos ali no chão em frente ao restaurante. Dores na barriga, seguida de dores no peito, falta de ar, muita ânsia e raríssimas chances de vida. Ali você tem tempo de fazer uma reavaliação do que foi sua vida até o momento, e eu tinha certeza que foi bem superficial e hipócrita. Fui socorrido por bombeiros que vieram prontamente do batalhão da praça da Sé, e a ambulância esperada nunca chegou.... Levaram me ao IAMSP onde fiquei sabendo que eu era o quarto paciente a ser levado por eles para aquele hospital. Fui diagnosticado com um Simples mal súbito, fiquei mais tranquilo com a notícia! Quando perguntei à minha namorada o que era um mal súbito, ela olhou para mim, sorriu e me disse: nada não bebê.... Quando a minha tia chegou, fiz a mesma pergunta, já que ela é da área em questão. E ela de bate pronto me respondeu: “Enfarto”. Olhei para ela assustadíssimo e sorri. E mais uma vez pensei comigo: pelo menos matei a minha vontade de andar no carro do corpo de bombeiros.


Ps.: Meus sinceros agradecimentos aos Policiais da Rocam e da Cia. do Corpo de Bombeiros da Praça da Sé, situada a Praça Clóvis Beviláqua, 421 - Centro, São Paulo - SP, 01018-001 - em Especial aos Bombeiros DAVID e mariane que. Prontamente me socorreram. Ao Gerente e funcionários do Restaurante Yucatan.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Aniversario Osny


Feliz aniversario poeta Osny Que Deus guie e ilumine seu caminho beijos 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O QUE É AMOR?

O QUE É AMOR?
(Por Maristela Ormond)





“O amor motiva a necessidade de proteção e pode se manifestar de diferentes formas: amor materno ou paterno, amor entre irmãos (fraterno), amor físico, amor platônico, amor à vida, amor pela natureza, amor pelos animais, amor altruísta, amor próprio, e etc.
Etimologicamente, o termo “amor” surgiu a partir do latim “amor”, palavra que tinha justamente o mesmo significado que atualmente: sentimento de afeição, paixão e grande desejo.
Definir o que é o amor não é uma tarefa fácil, pois para cada pessoa, o amor pode representar algo diferente”. 
É realmente difícil conceituar amor. Amor pode ser definido de várias formas, uma vez que ele apresenta-se também de forma variada. Como vimos acima são tipos diferenciados de amor, mas amar, amar mesmo de verdade, como podemos definir esse sentimento?
Se formos recorrer aos ensinamentos de nosso Mestre chegaremos à conclusão de que não só o conceito é muito complicado de ser explicado, mas também como materializar esse sentimento... Aliás, não estamos aqui falando de religiosidade, mas o único mandamento e a única religião que nos foi deixada por Ele foi baseada no amor. Quando Ele disse “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”, foi que o “caldo engrossou”. Como posso amar a qualquer um? Como posso amar alguém a quem não conheço ou alguém que não faz parte de meu rol de amizades carinhosas? Posso compadecer-me de alguém, posso auxiliar alguém quando haja necessidade de praticarmos a fraternidade em relação a outrem, mas será que realmente estou fazendo isso por amor?
Quando se trata de amor a coisa fica complicada. Quantas vezes você já se perguntou por que ama determinada pessoa e acaba se sentindo um imbecil a mais a face da Terra não é mesmo? Sim. Sei que isso já aconteceu com você e acontece com várias pessoas.
Acredito que o amor tem muito a ver com o olhar que lançamos para as pessoas e coisas. Esse olhar que é proveniente da função de nossos olhos, olhos esses que percorrem tudo a nossa volta, tanto objetos como pessoas, é que vai identificar se amamos ou não.
Parece meio complicado de entender, porém aquele algo inusitado, aquela pessoa, aquele objeto que faz com que nosso coração bata descompassadamente, que nosso corpo produza um calafrio, um suor mais intenso, pode significar que nossas emoções foram remexidas e o comando de nosso cérebro grava através de nossos olhos, uma foto que é revelada em nossa cabeça e pregada na coleção de imagens que guardamos em nosso painel de estimação. Sim. Vivemos colocando fotos novas em nosso painel e isso vai acontecer até o final de nossas vidas.
Você agora deve estar se perguntando: então o que é o amor? Amor é tudo isso. Amor é sentir a necessidade de doar-se, é sentir a necessidade de proteção, é sentir que existe alguém ou algo maior que nos acaricia em todos os momentos, sejam eles felizes, sejam eles menos felizes. Mas que obteremos respostas para nossos desejos mais íntimos em relação aos outros e a nós mesmos. Amar realmente é ser até um pouco egoísta porque doando amor, estaremos também recebendo amor e na verdade queremos e precisamos nos sentir amados.
Então vamos amar, amar tudo que nossos olhos podem enxergar de belo e se não for belo, tentaremos ao menos torna-lo algo belo através do olhar que lançarmos que com certeza será compreendido, correspondido e guardado no painel dos outros seres com quem compartilharmos nosso olhar de amor.








sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

PAZ

PAZ
(Maristela Ormond)

monólitospost


            E os fogos estouram pelo céu deixando o horizonte cada vez mais colorido. As pessoas observam cada estrela, cada rajada, cada brilho, comemorando a chegada de um novo ano. A humanidade une-se em um contar de tempo mesmo que com algumas horas de diferença, à expectativa de uma nova jornada de esperanças, de uma nova jornada de vida e de fé no futuro. E a comemoração se dá por encerrada na chegada de uma nova contagem...
            Percebemos então que tudo está como antes. Percebemos que comemoramos e fazemos vários votos de que seremos melhores, cada um de seu jeito e logo após estamos lá nós praticando os mesmos absurdos, os mesmos erros e a mesma pessoa com a qual nos confraternizamos na noite da passagem é capaz de não ser mais a mesma, tornou-se um inimigo.
            O mundo continua cheio de preconceitos, guerras ideológicas, desentendimentos religiosos por mais que existam pessoas que discursem o contrário tentando fazer com que a paz se estabeleça.
            A humanidade procura na maioria das vezes, falar sobre o que deu errado assim como estou fazendo neste momento. As lembranças de algo ruim são as que prevalecem para o homem. Por que não noticiamos sobre aquela pessoa que fez um bem ao outro, que conseguiu manter a paz em algum lugar do mundo, aquela pessoa que doou algo em prol de seu irmão tirando dele mesmo para ver o sorriso no rosto do outro ou aquela pessoa que se descobriu para cobrir o próximo e não deixar que se queimasse de frio ou de sede... Pois é, as mudanças que temos e precisamos fazer no mundo para que prosperemos são exatamente essas. Não nos alimentarmos de maldades, de desgraças que acontecem aqui e acolá, não nos alimentarmos de noticias ruins, de linguajares perniciosos que matam literalmente a autoestima do semelhante, não nos alimentarmos de palavras vãs que caluniam e colocam o outro na sarjeta das injúrias, mas falarmos sempre algo de bom que observamos em algum lugar, algo maravilhoso que aconteceu na casa de nosso vizinho, depor a favor da bondade, a favor da benevolência, impedindo que pequenas guerras se tornem grandes dissipadoras de homens, impedir que nossas crianças observem e aprendam o mal,  mas que observem e aprendam a benevolência que vem dos homens para que o mundo seja transformado num paraíso, aquele mesmo paraíso que até hoje choramos porque perdemos, porque sempre tentamos culpar alguém por essa perda. Assim com esta transformação não veremos mais no próximo um “babaca”, presa fácil, mas uma pessoa do bem que modificará o mundo, talvez não do dia para a noite, mas paulatinamente, de forma que nos tornemos seres dignos de haver sido criado à imagem e semelhança de nosso Pai.   




quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

LEIS DE MURPHY

 Leis de Murphy Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior
maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.E você com certeza já  reparou que ao entrar na fila do supermercado,a outra esta indo mais rápido. Não mude continue ali mesmo, porque toda fila que você entrar ela com certeza ficará devagar.No transito,esta naquele dia que tem muitas coisas a fazer, e a sua fila nada de andar, mas parada que tartaruga com sono ,olha do lado e vê que a outra vai mas rápido.o que você faz ?muda de fila o que acontece ? A que estava andando parou!  ? Mas e assim mesmo não adianta reclamar e nem mudar.Falei tudo isso para contar, que tem gente que e mais perseguida pela lei de Murphy que qualquer outra pessoa.tenho uma amiga que coitada, já esta até acostumada  com isso.Fomos a um posto colocar gasolina Colocou gasolina tudo  normal.dirigiu até os caixas,entrou no que tinha dois carros na frente,olhando do lado notou que o outro tinha apenas um carro,deu uma re,eu gritei não mude, o caixa vai travar ,tarde demais foi. já podem imaginar o que aconteceu.travou tudo inclusive o atendente,que não sabia o que fazer... Chama o gerente, a amiga reclamando.... perdemos vinte minutos nessa brincadeira Agora eu não sei se a Lei de Murphy pegou feio ou se a minha boca e que fez esse  estrago.Pensando até hoje!

LAF.           

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

OS POETAS REALMENTE EXISTEM?

OS POETAS REALMENTE EXISTEM?
Há quem diga que você merece ser amada (o), a vida nos proporciona aquilo que pedimos... e ao pedirmos amor e romantismo, com toques suaves de cavalheirismo, ela simplesmente sorri e lhe entrega em domicílio, como se entrasse pela chaminé e deixasse ao pé de sua lareira tudo o que passou implorando a ela desejoso (a) por receber. E se vier, apenas aceite e viva momentos os quais serão só seus.... O que é o amor se não ações?  Não são os atos físicos que importam? O amor não é algo subjetivo como muitos pensam lá no universo pequenino dos pensamentos de suas almas assombradas pelo fantasma da Solidão... Ele é real nos feitos e realizações diárias! A poesia é simplesmente os suspiros de quem já está apaixonado e solta soluços poéticos para todos os lugares. E quem entende, sabe que essa é a maneira de um poeta amar. Ele não é como os seres mortais que saem dizendo aos canais de comunicação e redes sociais, que estão amando alguém. Os poetas apenas soluçam versos de amores.... Então, se você já conquistou esses desejos, apenas curta esse momento ímpar! Pois a vida cansa de mandar amantes que o século passado, tem tentado tragar os poucos gatos pingados que sobraram com todas as ferramentas do cavalheirismo!  Deixando aqui somente os Don Juan, canalhas de plantão, a fim de dividir e conquistar, dividir famílias e fisgar mulheres carentes, fáceis de iludir com seus truques de mágicas de puro ilusionismo. Daqui um tempo a vida lhes mandarão apenas a solidão para que lhe faça companhia, e perceberá que a vida passou e com ela os cavalheiros do amor e os guerreiros da caneta à pena, aqueles poucos poetas que ainda sobrevivem de poucos leitores que resistem ao novo século, o século da escuridão. Já não existem mais leitores como antigamente e nem amantes como outrora, apenas um amor passageiro e fútil, se é que podemos chama-lo assim (amor). Hoje o ficar engoliu o amor, do mesmo modo como o século XX engoliu os amantes à moda antiga. Se você conhece algum, que esteja livre, peça esse de presente, o seu presente e você o receberá. Afinal, Poeta ou Poetisa, cavalheiro ou uma dama, já fazem parte dos contos da carochinha. Todos sabem que existem, mas ninguém os vê. Então se souber de algum (a), agarre o seu ou a sua, pois esse feito é como trevo de quatro folhas, difícil de encontrar, mas que dão realmente sorte no amor e na vida.

Osny Alves  

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

QUE CONFUSÃO...


(Maristela Ormond)




            Estou ficando confusa, já não consigo lembrar muito bem do teu sorriso, da cor de teus olhos ao certo. Estou confusa e em minha confusão não sei dizer se acredito no que digo a seu respeito ou se me respeita como acredito...
            A confusão que ronda nossos destinos nos faz cada vez mais próximos posto que cada vez que falamos em nossas diferenças, mais percebemos o quanto somos parecidos e confusos.
            Fecho meus olhos e desenho seu rosto dentro de mim. Não consigo lembrar se o olhar que me lançastes foi de amor ou de escárnio. Não consigo lembrar se o sorriso que destes foi para mim ou de mim... Aí se instala a confusão e nessa confusão maluca que assola meu coração chego à conclusão de que não posso viver longe de ti, pois sei que sou seu abrigo e seu caminho e sei que és o atalho por onde posso chegar cada vez mais rápido a sanidade, recobrando a consciência perdida no meio desta confusão.
            Confusa ou não, compreendo que mesmo não querendo mais, mais quero. Que mesmo dizendo não mais digo sim. Que mesmo querendo-te distante, mas preciso de você perto de mim.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Eu vivo

Tem coisa que me deixa muito triste .Como por exemplo a frase" Obrigada meu Deus por mais um dia vencido"como assim, não entendo como uma pessoa pode dizer isso,Por um acaso e muito sacrifício você viver?Claro que  não e fácil ,mas vencer o dia ?Deus nos deu os dias, não para serem vencidos , mas para serem vividos.E cada dia devemos agradecer pelos obstáculos que devemos  contornar , e que nos ensinam a  ser mais pacientes.Com as pessoas que nos magoam e assim mesmo as perdoamos.Com as nossas perdas, pelo caminhos da vida ,que nos ensinam a sermos mais fortes.
A vida não e fácil.Mas alguém disse que seria? por isso que devemos viver a vida linda que ganhamos de presente quando nascemos.Viver é ter a beleza de uma céu azul,o verde da mata, o por do sol , a chuva caindo também e bela, folhas levadas pelo vento como se fossem plumas,o Arco Iris colorindo o céu .Só você não vê porque esta preocupado e vencer mais um dia.Eu vivo cada minuto da minha vida,porque sei que o que  passa não volta mais.Saio.... ,olho... ,sinto a natureza, na sua plenitude, e isso que me faz viver.,não passo pela vida eu vivo.,não tenho um dia vencido tendo um dia vivido,mesmo com todos os avessos que a vida traz.

Leda AO Franco            

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

UM DIA PARA ESQUECER

Por Osny Alves

Hoje levantei sem saber que estava no paraíso e nem esperava chegar ao inferno tão rápido, o pior é que quando se está lá, você acha que já viu de tudo, aí vem o Tinhoso e te apresenta mais uma repartição e lhe diz que ali será o seu novo lugar. Fui ver o carro e vi que estava indisponível para mim, tentei o do meu pai e percebi que estava na mesma situação. Tentei o cartão de debito para sacar um dinheiro e pegar o ônibus, mas por incrível que pareça também não deu certo, em vez de depositarem na conta corrente, me enviaram para a conta salário que me impossibilitou de sacar no caixa eletrônico. Recorri ao cartão de credito que nem deu sinal de vida. Então resolvi encarar cinco quilômetros na pernada, coisa que não fazia há vinte e poucos anos. Eu me lembrei do bilhete único, um cartão que me possibilita pegar quantos ônibus eu quiser, o engraçado é que na hora de entrar no ônibus eu lembrei que tinha emprestado ao meu sobrinho para ir fazer o Enem. Ainda bem! Estava para passar vergonha. Voltei a pensar na maratona.

Os primeiros duzentos metros era uma subida íngreme. Tirei de letra, os passos versejavam quais poemas escritos à luz de uma lamparina! Meus passos eram rápidos, e precisos. Mas ao chegar ao topo, de uma ladeira de uns quinhentos metros que me forçavam a quase correr morro a baixo. Ainda sorria pensando em tirar aquela andança em poucos minutos, mas ao começar a subir uma montanha de uns seiscentos metros de arrancar a coluna do lugar, percebi que seria melhor ter ficado em casa, tranquilo, assistindo TV e bebendo uma Coca-Cola gelada, igual àquela que tinha em meu refrigerador. O suor já não escorria, ele jorrava. Minha camiseta grudava em meu corpo, como se fosse uma segunda pele. Minha calça parecia que caminhava no piloto automático, cheguei a tropeçar cinco vezes no piso plano o qual andava, minhas pernas bailavam a dança de um “bebum”, os nervos e músculos de minha coxa direita cantavam mais alto que o Axel Rose, na música “November Rain”. Mas não foi pior do que ter que passar por uma comunidade barra pesada, caminho pelo qual faço todos os dias apenas de carro e com os vidros fechados, tudo isso para economizar alguns quilômetros e algum tempo a menos.

Chegou uma hora em que minhas mãos estavam tão inchadas que pensei que minha barriga estivesse saindo do corpo! Viraram verdadeiras bolotas, meus dedos já gritavam de dor pulsando cada veia contida neles. Ao começar a subir a penúltima rampa de quatrocentos metros minha respiração já não era a mesma, não sabia se andava ou respirava, o meu piloto automático já apresentava falhas e voltei a tropeçar algumas vezes, e o pior, em nada! Quando cheguei ao topo, mal consegui atravessar a avenida.  Foi então que avistei as copas frondosas do pequeno bosque que eram vistas nas cercanias do colégio.  Desci mais uma rampinha de poucos metros. E comecei a última subida quase o dobro do último trajeto que acabara de descer...  Senti como se fosse o Rock Balboa, a subir os degraus daquela praça, ao fazer aquela corridinha memorável do filme! E ao chegar aos últimos cinquenta metros deu vontade de dar aqueles pulinhos que ele dava, ao ter êxito em sua jornada. Só não pulei, porque cairia para a morte com a cara estatelada no chão, no primeiro salto de dez centímetros. Enfim, cheguei. E quase enfartei ao ouvir a frase que ecoou em meus ouvidos afora:  
- Professor o que o senhor está fazendo aqui? Hoje você não tem aula!


Como eu disse...Algumas coisas seriam melhores esquecer!

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

POSSESSÃO







O que posso concluir depois de tudo o que passei é que antes eu era um, depois fui dois e agora voltei a ser um, mas de uma natureza diferente daquela que eu fora.
Quando estava dividido, a impressão que tinha era a de que minha alma estava sendo disputada por espíritos de naturezas diferentes. O desenrolar desta disputa, numa alternância de vencedores que parecia não ter fim, ora sob o jugo de um, ora sob o jugo de outro, tomando minha alma e habitando este meu corpo, fazia com que eu experimentasse tanto a confusão da semiescuridão quanto a desorientação completa da escuridão total das trevas. Porém, muitas e incontáveis as vezes em que me senti confuso e também desesperado; como o pêndulo de um relógio que não para de oscilar, minha alma ora pertencia a um, ora pertencia a outro; com isso, minha mente ficava dividida entre um extremo, em que era capaz de, neste corpo, levar a cabo as mais inexprimíveis maldades e outro, onde ficava a culpar-me das maldades que cometia no primeiro, embora não tivesse consciência do que eu tanto me acusava; havia apenas um sentimento de culpa abstrato que me atormentava a existência. Hoje, sinto que sou peregrino neste corpo e nesta terra; eu escrevo o que vejo através destes olhos. Nada, além disto. Eu apenas olho, vejo e escrevo.

        A experiência que narrarei aconteceu muito antes que eu pudesse formar, digamos, uma pálida opinião a respeito e em seguida expressá-la nas palavras do último parágrafo que o leitor acabou de ler. Porém, a impressão mais forte, a sensação indizível e que jamais se apagará de minha memória, esta, não conseguirei escrevê-la; a que experimentei quando, depois que tudo acabou, eu abri os olhos e pude, então, chorar.

Nesta história eu serei o autor, o narrador e o protagonista; os demais personagens e os acontecimentos poderão ser reais ou fictícios. Excetuando a minha pessoa, tudo o mais poderá levar a divagações devido à ambiguidade, ou não, e à maneira como será percebido pelo leitor inconsciente, aquele que lê ao mesmo tempo em que o leitor consciente, mas que, diferentemente deste, penetra na supra realidade.

Comecemos.

No dia onze de junho de 200..., exatamente às onze horas, entrei na livraria, no centro da cidade. Meu objetivo era específico e a intenção há muito determinada: comprar o livro de Waldemar Ribeiro, intitulado “Cura em Cafarnaum” e outro chamado “Concordância bíblica”. Depois de folheá-los, mais por hábito do que por curiosidade, entreguei-os à vendedora que preencheu a nota de venda; depois, dirigi-me à caixa para efetuar o pagamento e foi aí que aconteceu uma coisa que veio tirar da rotina todo o resto daquele dia e de muitos outros depois dele: a moça da caixa, depois de ler o preço a ser pago, falou para outra a seu lado, encarregada da seção de embrulhos, que aquele era o número da besta. Despertado por aquelas palavras e mais ainda pelo tom com o qual elas foram pronunciadas, perguntei-lhe o que estava acontecendo e ela, trêmula, respondeu-me que o valor a ser pago correspondia ao número da Besta, que estava na Bíblia. Achei curiosa a coincidência e, se não fosse a agitação que percebi nas duas, aquilo teria sido esquecido ali mesmo. Paguei e ao estender o braço para pegar o embrulho notei que a balconista segurava-o com as pontas dos dedos, parecendo querer evitar que minha mão tocasse na sua. Foi num misto de encabulado e confuso que apanhei os livros e saí da livraria, pretendendo nunca mais voltar ali, mas não sem antes verificar que havia guardado e bem guardado, a nota de venda; queria olhá-la com calma enquanto estivesse na barca que fazia a travessia da baia, levando-me de volta para casa. E assim fiz.

Acomodei-me numa das cadeiras do andar de cima da barca, junto à janela e, depois de colocar a pasta e o embrulho sobre a cadeira vazia ao meu lado, retirei a nota de venda do bolso e passei a examiná-la: o papel era branco e as letras impressas na cor preta; escritos a caneta estavam a data, os nomes dos livros, os valores e, ao pé da nota, no canto direito, o total a pagar com o desconto: 148,666 reais. Nada mais; uma nota como outra qualquer, não fosse o acontecido na loja por causa do número. Dobrei papel e recoloquei-o no bolso. Cruzei os braços, olhando através da janela distraidamente e pensei na bobagem que era aquilo tudo. Porém, curiosamente, embora eu tenha ficado a pensar também em outras coisas durante o tempo da travessia da baia, aquela bobagem não saia da minha cabeça, como acontece com outras coisas que pensamos e que daqui a dois minutos são substituídas por outros pensamentos. Era como se algo de concreto, e não de abstrato como um pensamento, houvesse entrado em minha mente e agora ocupasse um lugar discreto e obscuro, bem lá no fundo, com os olhos a mirar o meu interior, como que a fazer o reconhecimento do lugar onde, daquele momento em diante, passaria a habitar e, horror dos horrores, a agir.

Desde este maldito dia, eu não consigo executar meu trabalho. Todas as vezes que tentei escrever algo, o fazia durante o dia inteiro para, logo chegada à noite, reler e atirar dentro de uma gaveta destinada a “Escritos não concluídos – ideias”; muitos manuscritos sem encadeamento ou uma ideia central foram ali colocados; apenas escritos doloridos e confusos de uma alma que vivia em permanente inferno, pois, como se verá adiante, o que eu queria escrever, isso não o fazia, mas o que não queria era o que eu escrevia. Junto aos editores já não tinha mais crédito e há muito meus livros foram relegados ao esquecimento. Não só não conseguia dirigir o que escrevia como, também, nada mais me distraia ou me dava alegria. Quando em frente ao espelho, desespero é o que eu via em meus olhos; não eram mais meus olhos, não era mais o meu olhar. Era algo que passou a habitar o meu interior e que aos poucos foi deformando o meu corpo, provocando-me rugas, muitas rugas em meu rosto e rachaduras em meus lábios e por entre os meus dedos – e como doíam!  E eu queria chorar e não conseguia; sentia o choro subir e ser barrado na garganta, preso... A cada choro não chorado, sentia meu corpo e principalmente minha cabeça inchar de ar, de desespero e de agonia.

Até os amigos mais chegados se afastaram de mim; era grande a minha solidão e o meu desespero, pois nem mesmo a minha própria voz era a mesma e as palavras que pronunciava careciam de sentido. Quando me olhava no espelho, o que me parecia era que a minha verdadeira imagem refletida estava embaçada, deixando a nitidez para uma visão horrenda que eu não conseguia encarar por um mínimo de tempo que fosse. Eu sabia que havia alguém ou alguma coisa lá, algo que eu conhecia, mas que me negava a encarar; não queria ver a máscara que agora cobria meu rosto real, se é que um dia o fora – até disso eu duvidei. Era triste, não queria ver-me; desviava o olhar do espelho e encontrava comigo em pensamento. Sabia que deveria olhar de frente a verdade da qual sempre fugira, mas tinha medo.

Um dia, já não sei mais quando, obriguei-me a ficar em frente ao espelho; foi logo depois de, mais uma vez, eu tentar chorar e não conseguir. A força para isso foi encontrada no meu desespero. Então, olhei bem para a imagem nítida, enquanto mantinha meu pescoço e minha cabeça vacilantes eretos, e vi que não era eu; era outra pessoa que andava – eu pressenti – perdida num passado do qual eu me esquivava de lembrar. Aos poucos, obrigando meu corpo àquela posição, sentindo uma dor infernal, consegui perceber que havia mais alguém – agora com certeza – dentro de mim que, inexplicavelmente, estava a me olhar; era uma presença que eu não conseguia determinar ou localizar, mas sentia estar ali comigo. Era algo feio, nascido do húmus da maldade que espreitava e sorria... Ria... Gargalhava! Agora eu era dois!

Ledo engano o meu; ao continuar olhando, consegui perceber uma legião dentro de mim. Então, eu me indagava, onde a unidade dentro de mim, onde o indivíduo... Onde o ser único que sempre ouvi dizer que cada pessoa é? Sentia que estava desintegrando-me a cada momento que passava. E estes pensamentos estranhos feriam minha mente, fazendo-a sangrar; já há muito não conseguia mais me controlar, manter a unidade mais simples de um único pensamento que fosse meu de verdade. Ah! Que verruma era aquela que penetrava em mim querendo arrancar meus rins e meu coração, minhas últimas gotas de sanidade e minha já tão minguada alegria de outrora?

Já não suportava mais tanto sofrimento físico e mental. Minha carne estourava em furúnculos que depois de abriam, deixando sair o prurido amarelo e nauseante; não se fechava e não cessava de sangrar e arder e eu tentava chorar, mas as lágrimas não saíam. Tinha o meu corpo coberto de chagas, chagas superficiais resultantes de uma luta que estava se travando dentro de mim e da qual eu só conseguia sentir a dor, mas nunca participar; meu corpo era apenas a arena de um confronto muito grande, não em tamanho, mas em profundidade e de que meu pensamento lógico não conseguia formar uma apagada ideia.

Assim, encontrei-me neste estado, não sei se no corpo ou fora dele, não sei se dormindo ou acordado, pois já não conseguia separar o real do irreal, assim. Neste estado, certa vez tive uma visão: estava diante do espelho e ouvi, saindo de dentro de mim, pelos olhos (única janela ainda aberta para o exterior em que não havia chagas, apenas dois buracos enevoados), uma voz que ora parecia ser a minha, para logo em seguida, misturar-se com outras. Foi quando ouvi um som que me pareceu de trombeta e que saia do meu interior como a voz de muitas águas caindo:

“Sei bem o que queres, já descobri teu novo ardil. Prostrado está esse corpo sobre o leito por causa de nossa luta. Deixaste-o com uma pergunta sem resposta e o pensamento confundiu-se e o corpo caiu extenuado. E então tomaste as rédeas e colocou outro pensamento em sua mente, um pensamento de que não adianta lutar nesta vida, de que não há felicidade, de que não há solução e o que existe é nada e confusão e desespero e um debater-se em vão – falaste certo, pois falaste do que é próprio de ti, pois és o pai da mentira. Mas, como sempre, cometeste um erro: esqueceste que todo ser humano é habitado por um espírito, que pode ser de luz ou de trevas e este esta ocupado pelo de luz, embora, por causa de nosso confronto, pareça ser de semiescuridão; e enquanto te preocupavas em trazer a confusão a este ser, eu me fortalecia na fonte de água viva desde o nosso último encontro e agora eis-me aqui novamente. Se nosso confronto impede que este homem coordene o pensamento, farei com que ele narre nosso encontro, segundo seus símbolos. E tu, espírito de Asmodeu, não selarás as palavras desta boca e nem prenderás a mão que as escreverá. O corpo está fraco, mas narrará, mesmo sem o saber, para que todos saibam e fiquem conhecendo o que é o tormento de uma mente dividida. Tal escrito parecerá estranho, extremamente estranho, beirando mesmo as raias do absurdo e da loucura, pois esta, a loucura, é a mente dividida. É necessário saber que se trata de uma luta travada no interior do ser, uma luta entre a Luz e as Trevas, entre a Alegria e a Tristeza, entre o Bem e o Mal... entre Deus e o Diabo e, por isso, nem sempre inteligível – pelo menos por enquanto. É a luta da Vida contra a Morte. É o retrato em preto e branco do que acontece dentro de cada ser humano, sempre que tiver que escolher entre dois valores... Deus e o Diabo lutam por almas, destruindo corpos. Durante a transcrição deste combate, a disputa pela posse desta alma não cessará e por isso a escrita oscilará entre a extrema lucidez e também – infelizmente – a extrema escuridão e incompreensão. Não sei em que estado ficará este corpo material depois de finda a batalha, mas haverá orgulho por parte do autor que escreve, e também um sentimento de vitória por ter o privilégio de estar parcialmente consciente, nesta vida terrena e passageira, daquilo que é vedado conhecer à maioria dos mortais: a luta entre o Bem e o Mal. Esta mente dirá com orgulho: 'que se realize em mim a tão atroz e antiga disputa; sinto satisfação – ele dirá nesta sua narrativa e nas posteriores – e agradeço ao Senhor da luz o privilégio de poder presenciar como as coisas acontecem, verdadeiramente, dentro de cada ser humano'.”

25 de agosto
Agora sei que estou são, pois tenho medo de ficar louco. Quando minha mente é atacada por espíritos malignos, o espírito de luz que em mim habita vem em meu socorro. É uma coisa horrenda ser o campo de luta onde se trava a batalha pela posse de minha alma. O doutor Inglaterra disse que uma pessoa louca não consegue escrever seus próprios pensamentos; se é verdade, então eu não estou louco. Isso me faz lembrar que o meu editor não me tem mandado o pagamento pelos meus escritos que tenho lhe enviado.

26 agosto
Percebo que a poesia não passa pelo intelecto, ela sai direto dos rins e do coração para o papel. Hoje recebi um e-mail contendo um poema; fiquei com medo de abrir porque minha boca começou a sangrar e apareceu um furúnculo logo abaixo de meu olho esquerdo; dói, mas eu não sei se quero chorar. Abri o e-mail e constatei que eu estava certo: era uma mensagem do Diabo. Respondi imediatamente com aquilo que me ocorreu no momento. Acho que minha missão começou hoje. Os meus inimigos serão os da minha própria casa.

27 de agosto
Mandei hoje a resposta para o Diabo; não coloquei endereço porque ele já sabe o que está escrito. Tenho uma cópia do e-mail e vou transcrevê-la neste meu diário. Ei-la:
'Neste mundo... Acreditar que a moeda só tem uma face é estar vulnerável à outra! Se no tempo presente uma prevalece sobre a outra, é para mostrar que em toda afirmação está contida sua negação! Neste mundo... Se andarmos na escuridão, é porque desconhecemos a luz; quem é da noite, anda nas trevas, quem é do dia, anda na luz. Existem os que querem mais do que a luz comum! Existem os que buscam a luz plena e já a vislumbraram; estes trazem no peito o escudo em espelho e contra tais as trevas não prevalecerão! Chegará o dia, e agora já é, em que deixaremos de ver somente as aparências e em espelho! Neste dia, e agora já é, conheceremos plenamente, como plenamente já somos conhecidos! E este dia chegou, e este dia já é... E nos veremos face à face e o som da primeira trombeta já soou! Está declarada a batalha da Luz contra as Trevas e contra aquela, estas não prevalecerão! Os despojos pertencem ao Vencedor! E para a alma que das trevas será libertada, tudo se fará luz! A morte foi vencida! O clarim da batalha já soou. '

28 de agosto
Leio bons livros e a cada dia que passa, à medida que vou escrevendo, caracterizando os personagens, vou, ao mesmo tempo, percebendo com mais fineza os caracteres das pessoas que conheço. Não posso dizer que as acho mais bonitas interiormente; o que tenho achado é mais tristeza e poucas alegrias, sendo estas passageiras, fruto de pensamentos fugazes que hoje valem e amanhã já não prestam mais.
Definição de Homem: um sonho que uma personagem de uma narrativa está sonhando.

29 de agosto
Hoje lavei o meu quarto para ver se consigo melhorar o “clima” dentro de minha cabeça. Eu poderia explicar agora qual a relação que uma coisa tem com a outra, mas estou sentindo muitas dores por causados furúnculos que apareceram atrás a orelha e debaixo do queixo; também não escrevo, porque, quando abaixo a cabeça para escrever, o papel fica todo pingado de sangue; qualquer dia, em qualquer hora, coloco novamente a situação diante de uma personagem e aí ela que se preocupe com as explicações, justificativas ou seja lá com o que ela quiser. E pronto.

30 de agosto
Tenho andado com minha atenção desperta desde que recebi aquele e-mail desafiando-me para lutar pela posse de minha alma. O desafio foi aceito.
Tento não me irritar e nem deixar que este espírito do mal me distraia de meu ofício. Devo procurar conhecer bem as maneiras de que se utiliza para melhor poder escrevê-las em meus livros que não devem falar do particular, mas do universal. Mas é difícil para meu intelecto apreender o que está acontecendo na esfera espiritual.

31 agosto
Uma coisa estranha aconteceu hoje de manhã: sai para comprar um livro sobre os mitos da antiga Ásia e que há tempo encontrava-se esquecido e empoeirado na prateleira de um antigo Sebo e ele havia desaparecido; indaguei do dono e ele não se lembrava de ter aquele livro na livraria. O que me dirá esse livro? Devo ser cauteloso em meus julgamentos. 'Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. '

32 agosto
Terminei o meu noviciado no dia em que fiz oitenta e dois anos; foi o tempo que levei ouvindo, vendo e aprendendo. Agora, sinto que estou sendo submetido a provas para saber se sou digno de tornar-me um Iniciado. Por outro lado, sei que isto não depende de mim; sou apenas terreno de peleja. A primeira prova já veio; outras mais virão e eu não sei se passei na primeira. Desde ontem sinto que meu espírito descansa; há calmaria dentro de mim, mas não sei se o inimigo se prepara para outro ataque. Digo “inimigo” porque as provas para a iniciação constituem-se de enfrentamentos com as forças do mundo inferior: ou se é derrotado e aí – ai de mim! - ou se é vitorioso e inicia-se uma nova fase. Estou em estado de alerta. Porém, sei que de nada adianta eu me preocupar, porque na hora da peleja, será o espírito divino que em mim habita quem irá lutar. Eu, por mim mesmo, nada posso fazer, só me resta esperar.

33 de agosto
Sinto que o inimigo está à espreita, como fera acuada. Talvez o ataque venho hoje ou amanhã. Se vier hoje, estou atento, porém volto a dizer para mim mesmo que quem está escrevendo estas palavras não é o espírito divino que em mim habita; quem está alerta – atitude vã – é minha mente, minha razão, meu intelecto – arma inútil e, às vezes, até aliada ao mal. Quem tem ouvidos ouça o que o espírito diz ao seu templo humano.

34 de agosto
Urinei na cama durante a noite passada. Acho que o espírito divino, durante a luta, abandonou o meu corpo, deixando-me à mercê do espírito infernal, que fez com ele o que quis, para mostrar o seu poder e a sua força. Não sei o que aconteceu durante o sono. De qualquer maneira, hoje, a minha consciência não me acusa de nada, isto é, o demônio não me flagela. Estou bem.

35 de agosto
A luta, que parecia haver cessado, continuou no silêncio, impedindo-me de fazer qualquer coisa. Queria chorar, mas “ele” não deixa; tenho medo e sinto dor. O pai da mentira usa pessoas inocentes, entrando em seus corpos e fazendo com que elas, sem o saberem, trabalhem para ele. Seu objetivo é ganhar a alma. Agora me ataca diferente, não é mais cara a cara; agora, tira minhas forças criativas, enfraquecendo meu corpo e minha mente, tomando conta de minha alma. Quem virá em meu socorro? Ó Espírito Divino, senhor dos céus e da terra, Deus todo poderoso! Vinde em auxílio de minha alma; livrai-me dos espíritos infernais dando-me o poder de exorcizá-los! Fortalecei minha alma levando-a para mais perto de vossas asas protetoras e então terei forças para continuar a lutar. Vinde em meu socorro, não me deixeis naufragar novamente! Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?!”.


Estas anotações, em forma de diário, foram encontradas dentro da gaveta de “escritos não concluídos...”; tenho a certeza de que não as escrevi antes daquele dia onze de junho, mas a caligrafia é minha. Além do que acabei de contar, só uma coisa mais resta a narrar e que me devolveu a alegria de viver: o que senti um pouco antes de abrir os olhos. Neste momento, senti meu corpo todo ser sacudido e depois ser suspenso no meio da escuridão das trevas do que me pareceu ser o Abismo e nem o meu próprio corpo, eu conseguia enxergar. A única certeza que eu tinha era a de que havia um pensamento e esse pensamento era eu; sentia que era fortemente puxado para cima e para baixo; senti o que acho ser meu próprio corpo ser partido ao meio; no mesmo instante, uma voz vinda de dentro de mim gritou, não para mim, mas para outro alguém que estava fora de mim: “que temos nós contigo? Vieste destruir-nos? Bem sabemos quem sois”. E logo em seguida ouvi uma grande voz, como a voz de muitas águas, que imperativamente falou: “cala-te e sai dele!”. Foi então que senti meu corpo sendo convulsionado pelo que falara primeiro e que, gritando com grande voz, foi arrancado de dentro de mim e jogado de volta ao Abismo. Neste exato momento, abri os olhos e senti uma grande paz e vi que estava deitado em minha própria cama e tinha as vestes rasgadas e sujas de sangue, mas por baixo delas, o meu corpo estava são.

Levei as mãos ao rosto e, então chorei.



EP. Gheramer