João Ninguém


Crédito da Imagem (editada) - Verlin 

      A visão que João tinha de si mesmo na sociedade, no que diz respeito ao seu papel como indivíduo, era a de que ele – como todo ser humano - era um ser encerrado em si mesmo e autossuficiente, sendo capaz de satisfazer a si mesmo, sem a necessidade de receber de fora coisa alguma, porque era absolutamente pleno.
      Em suas conjecturas, percebia que querendo ser uma pessoa assim, deveria ter o cuidado de não se deixar enganar quando diziam que o homem depende de tudo e de todos.
      Aqueles que detinham o Poder usavam o argumento de que o homem tem necessidades que somente vindo de fora dele o podem satisfazer. Tem de viver em sociedade a fim de participar dos bens que são indispensáveis à vida. Tem que haver reciprocidade entre os homens se não quiser esvaziar-se e aniquilar-se em sua solidão. É pela troca que precisa viver. Sempre aprendendo, ouvindo, compreendendo e criando novidades para poder participar do espírito social e que fora do grupo jamais conseguiria.
João pensava que de todo contato dependente do exterior resulta, de maneira imediata, em limitações, inibições e colisões de interesses. É realizando-se como indivíduo - como ser único que cada um é -, preservando seu espaço próprio e aceitando esse mesmo direito do outro, é que ele consegue viver plenamente, ao invés de dispersar-se na união de contrastes que se excluem mutuamente.
      É claro – pensava João – que no caminho ocorrerão conflitos: com a comunidade, com os outros indivíduos e consigo mesmo. Estes conflitos podem se transformar em falhas, em derrotas, em limitações das possibilidades existenciais. Ele sabia disso. Mas também sabia que era perfeitamente possível que originassem vivencias mais profundas que se desenvolveriam para o bem de cada um - e de todos -, de uma forma sadia e benéfica, diferente da constante competição egoísta em que vive o homem e onde cada um só procura os interesses próprios, desde que tenha alcançado o poder para isso. 
      A humanidade está podre e cheira mal. É preciso mudar o foco.



EP. Gheramer
Site do Autor: Palavras ao Vento

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