Vá Pela Contramão



Uma homenagem à minha querida Cidade de Niterói.

     O motorista que trafega com seu carro pela Rua Miguel de Frias há poucos anos, na verdade só a conhece em parte.
   Não estou me referindo às mudanças que o tempo provoca; estou falando em direção, sentido. O motorista, em seu carro, sempre que pega a Miguel de Frias, vindo da Rua Marquês de Paraná, passa pela Rua Mem de Sá, Tavares de Macedo, Moreira César e, finalmente, chega à Praia de Icaraí. Assim, sempre que estiver ao volante, será essa a sua direção – ela é contramão para quem vem da praia. Se alguém lhe perguntar se conhece a Miguel de Frias, imediatamente dirá que sim – vai logo explicando onde é.
Na verdade, só a conhece no sentido que vai do centro para a praia. Não a conhece no sentido contrário, isto é, da praia para o centro.
     O estado de humor de quem vai do centro para a praia é diferente do humor de quem vai da praia para o centro. No primeiro caso, o motorista está saindo de um aglomerado de prédios, indo em direção ao mar, que é espaçoso, aberto e onde o olhar e o espírito podem vadiar à vontade. Já o oposto sucede com quem faz o percurso contrário – impossível para carros. É aí que está o privilégio do pedestre – ele pode andar na contramão!
À medida que o pedestre se afasta da praia e penetra no aglomerado de prédios – verdadeiros corredores -, seu espírito se aperta e se estreita, seu olhar já não vai mais tão longe, seu espírito não mais passeia... .
     O percurso que faz o motorista o leva a desfrutar de um estado de humor mais agradável – vai para a praia, espaço aberto... -, porém somente o pedestre pode degustar, com maior prazer, este “chegar à praia”... Ele conhece o desprazer do caminho contrário – pode comparar.
     Experimente um dia. Domingo ou feriado, são os melhores dias. Estacione o carro no final da praia, no Canto do Rio. Depois, vá até o calçadão da praia. Dê uma boa olhada em volta de você. Se conseguir se desvencilhar do seu acanhamento, desça até a areia, vá até a beira da água, coloque o pé ou a mão, sinta... . Vire para a direita. Deixe seus olhos escorregarem pelas areias, até o final da praia... Está vendo o relógio da Reitoria? É lá que começa a Miguel de Frias. Agora, vá andando pela areia ou, se preferir, pelo calçadão – o melhor é pela areia. Vá andando, como quem passeia e não como alguém que quer chegar a algum lugar – é feriado, lembra-se?
Chegou, agora, em frente a Miguel de Frias; atravesse a rua e pare um pouco num tipo que podemos chamar de pracinha, triangular – fica bem no meio da Miguel de Frias. Olhe para o final dela – é bem cedinho, não tem quase ninguém nas ruas; é domingo, lembra-se? Se tiver bolsos, coloque as mãos neles. Sinta a diferença: à sua frente, uma rua que o leva ao centro; às suas costas, a praia, o horizonte aberto...
   Está pronto? Podemos continuar agora? Sim? Então vamos. Sugiro que peque a calçada do lado esquerdo, onde tem a Reitoria, depois vem a Gruta de Capri... Continue andando... O Colégio São Vicente de Paulo, a Igreja, ah! já ia esquecendo, olhe o flamboyant alaranjado no pátio do colégio... Olhou? Então continue: a igreja, depois vem um jardim – olhe como é bem cuidado – com palmeiras, roseiras, hibiscos e outras plantas mais, que não sei o nome, porque não me importam seus nomes, importam sua beleza. Observe que a calçada tem muitas árvores... Não são bonitas? Ouça! Está ouvindo? É... São passarinhos... . Estamos chegando agora na grutinha, é Nossa Senhora da Conceição, fica na frente do Asilo para idosos... .
    Daqui pra frente é quase tudo prédio. Mesmo assim, continue até o final. Atravesse a Fagundes Varela. Está vendo a calçada longa, com árvores de um lado e um muro com vegetação por cima? Por trás desse muro é o Clube dos Ingleses, é assim que o pessoal o chama. Agora você chegou à Rua Marquês de Paraná, é o final da Miguel de Frias. Dê meia volta. Olhe. No final, a praia o espera. Volte pelo outro lado, para poder olhar por onde passou.
      Ao chegar à praia, se puder – e quiser -, tire as roupas, fique nu (a) e caia na água; dê um mergulho e saia lá na frente e, sacudindo a água dos olhos, vire-se para a terra... Está vendo a Miguel de Frias? Ela não é mesmo bonita?!...

      Quem só anda de carro, só conhece metade de Niterói.


EP.Gheramer

Imagem: ArtVida


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