A Rita


Crédito da imagem: Rob Gonsalves

      A Rita está nervosa e confusa por causa dos problemas que está passando em casa. Eu lhe disse o que achava que estava se acontecendo, mas parece que ela não entendeu muito bem. Assim que acabei de expor meu ponto de vista, ela foi logo dizendo que estava criando problemas para mim.  Pensou que, por eu lhe falar daquele modo, eu estava – de alguma maneira -, querendo assumir a culpa por seus problemas e, ao mesmo tempo, sentindo-me incomodado.
      Assim, de qualquer ângulo que ela olhe para o conflito pelo qual está passando, lhe parece ser a causadora de tudo, pois, quer em sua casa ou comigo, ela se acha o espinho que incomoda.
      Pensa que está sempre incomodando e não consegue enxergar, nem por um momento, que está certa naquilo que pensa e que não é nenhum espinho. Enfim, sente-se insegura em qualquer lugar que se coloque nisso tudo.
      Queixa-se de que apesar de fazer tudo em casa, providenciando para que nada falte para todos ali, vem sofrendo pressões e, por isso, não entende a razão para isso, Eu lhe disse que apesar dela continuar a fazer seu trabalho doméstico da mesma forma que sempre fizera, ela, na verdade, estava mudada interiormente e essa mudança estava sendo percebida subliminarmente pelos outros.
      Ela, hoje, é uma pessoa diferente. Tornou-se esperançosa e amante da vida, reencontrando, aos 39 anos, a beleza de viver e, em casa, no seu relacionamento estruturado durante mais de vinte anos, as pessoas notaram isso e, por uma condição humana, sentem-se como que ameaçados por sua mudança (sem saberem que era felicidade, o que ela estava sentindo), por sua reencontrada alegria de viver e, por isso, voltam suas cargas para ela, para esta pessoa agora desconhecida para eles.
      Não gostamos quando a felicidade de uma pessoa não depende de nós e, muito menos, quando esta felicidade nos obriga a reestruturar nossa maneira de lidar com ela, de tal modo que possamos continuar a manipulá-la como antes, sem riscos de perdê-la. É aí, nessas horas, que nos sentimos ameaçados e queremos retomar o controle da situação, tornando-a estável novamente, sem levar em conta a pessoa com sua nova chama de vida. É então que pensamos ser mais fácil extingui-la do que viver diante de uma claridade que ofusca nossa visão, formada e estagnada que temos dela - e de nós mesmo!
      Sentimo-nos na necessidade de mudar alguém e falsamente acreditamos ser mais fácil mudar o outro, retirar-lhe aquela alegria ao invés de procurar adquiri-la para nós próprios. Ao agirmos assim, estamos criando um inferno para todos.
      Rita é uma mulher corajosa e sua alegria de viver é contagiante. Quando estamos juntos, sinto-me vivendo em um mundo há muito buscado; um modo de viver alegre e feliz, onde vale à pena. Quando estamos juntos, compartilhamos nossas experiências, mas, principalmente, compartilhamos o lado belo da vida e damos muito mais realce a este lado do que ao lado triste.
      A vida não muda quando estamos juntos, mas muda a nossa maneira de viver, o modo de olhar para ela e então vemos seu esplendor em tudo ao redor, seja numa flor, numa paisagem, seja no sentimento belo que temos um pelo outro.
      Quando nos amamos, nos amamos de verdade e ao invés de nos perdermos um no outro, nós nos encontramos cada vez mais. Sinto que ela me faz crescer, ela me faz amar mais a vida; ela fez renascer em mim a minha própria vida; sinto que sou importante e que faço parte de sua felicidade; sinto até que sou responsável por essa felicidade, da mesma forma que ela é a responsável pela minha. É assim que eu me sinto quando estou com ela.
      Oh, quanto devo por este carinho que você me dá; quanto cresci depois que a conheci, e são somente dez meses! Você me deu, nesse tempo, o que eu esperei para receber durante minha vida toda.

      Caminhei, caminhei... E repousei em seus braços.


EP. Gheramer


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