Capítulo 5 - O Lado Escuro da Luz


Não passara despercebido a Benjamim, o longo período de silêncio em que ficou depois que terminara de ler o seu livro de modo sistemático, isto é, começando do princípio e não mais da maneira aleatória como o fizera até então, abrindo-o em qualquer página e lendo um trecho desgarrado e por isso tornado incompreensível. A luz que via agora, de dentro da mais densa treva, contrastava com o racionalismo, com o determinismo versus o livre-arbítrio, com o intelectualismo e a discussões e tudo o mais concernentes à vontade do homem, em contraste com a vontade divina.
Pode ver que por defender uma religião intensamente pessoal, em oposição à religião institucional, colocara-se em choque com a falsa moral formada por ela. Ele acusava a igreja oficial de não refletir o cristianismo genuíno, por haver acomodado a religião ao poder social, visando o convívio conformista e pacífico da humanidade, à custa do crescimento de cada ser humano em sua individualidade inerente. E isso era uma situação com a qual ele não concordava. Acreditava que isso levava à desintegração física final dos indivíduos, ao mesmo tempo em que impedia seu desenvolvimento espiritual. Ele observava que a primeira coisa que uma pessoa tem que fazer para evitar cometer pecado e viver sem culpa, era não frequentando essa Igreja resignada. E por quê? Porque a pessoa não seria forçada a dizer uma mentira ao afirmar que sua igreja representava a Igreja genuína do Novo Testamento.
Com o rompimento do seu modo de vida anterior, Benjamim se viu livre do absurdo desespero em que havia se tornado sua existência. E isto deu início a uma fantástica produtividade intelectual, com o intuito de expor um vívido quadro sobre o que significa alguém ser um cristão.
Tinha a firme crença de que a vontade tem o poder de formar a natureza humana. Para ele, não há uma natureza fixa, e um homem pode fazer o que quiser, tornando-se aquilo que seus recursos internos fazem dele. Opunha-se àquele falso determinismo, originário em um Espírito Absoluto, que controla todas as manifestações da existência.
Para ele, o homem é o resultado de seus atos voluntariosos, e não aquilo que ele é forçado a ser, por meio de forças externas que enfatizam a irracionalidade do ser e o poder do medo, como fizeram as religiões instituídas. Somente quando está livre dessas forças, é que a pessoa injeta esperança naquilo que parece inútil, permitindo-lhe usar a vontade na busca pelo Divino Desconhecido, o que insufla significado naquilo que, de outro modo, não tem qualquer sentido. Neste mundo o homem é um ser criativo, e não um autômato, manipulado por forças externas.
Também acreditava que sem Cristo, o homem é um ser solitário, que boia sobre as ondas de uma existência aterrorizante. A missão de Cristo ocupa posição central no livramento do homem. Esse livramento é da falta de significação. O cristão espera por atos misericordiosos de Deus, bem como pela sua graça, a fim de ser revertida qualquer situação insustentável.
Após o término da leitura da última página do livro, ele percebeu que desde o princípio, havia enfrentado a vida como se o prazer fosse a essência da mesma. Agora ele podia ver que essa forma de vida parecia envolver o máximo de liberdade, mas, na verdade, faltava-lhe propósito. Ao seguir essa trilha acabara sem valores que pudesse seguir, e desintegrou-se em torno de desejos que nunca encontravam real satisfação. Foi somente depois de ultrapassar esse sentido hedonista, que começou a buscar um propósito na vida. Metaforicamente falando, ele passou a buscar uma esposa e não uma amante passageira.
Observou também que em certa altura da vida, ele experimentou o ideal socrático de que o homem contém, em si mesmo, todas as respostas, pelo que tudo de quanto uma pessoa precisa é um bom mestre ou guia que faça vir à tona o que já existe inerentemente em seu homem interior. Mas, ao longo do caminho, deixou Sócrates e começou a seguir Cristo. Ele descobriu que um homem precisa do Salvador, e não apenas de um mestre.
Foi então que mudou seu modo de encarar as vicissitudes da vida eliminando, progressivamente, todas as alternativas de um problema qualquer que surgisse. Finalmente, com a eliminação de todas as supostas respostas às coisas, e o que restou foi um enorme vazio. E do interior desse vazio, percebeu a sua necessidade de revelação. A essa altura, ele estava se aproximando da abordagem espiritual da vida. Esta aproximação desencadeou sentimentos de temor, porquanto soube que, agora, estava tratando com um grande poder.
É por essa altura das coisas que Deus pode intervir, elevando o indivíduo acima daquilo que é meramente ético.
Nesse ponto, a vontade de Deus aparece suprema e a abordagem espiritual não está sujeita a explicações lógicas. Está eivada de paradoxos. O paradoxo supremo é o próprio Deus.
O herói das tragédias renuncia a si mesmo a fim de expressar o que é universal. E, diferentemente do que ocorre na ficção, o homem de fé renuncia ao que é universal a fim de obter a si mesmo. O homem de fé segue pelo caminho superior.
Ao terminar a leitura e fechar o livro no qual ele próprio deixara registradas as diferentes fases da trajetória de toda sua vida, percebeu que estava diante de uma decisão que teria que tomar se quisesse continuar fazendo seu próprio caminho - estava diante do salto da fé.

Continua...

EP. Gheramer



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